Militarismo / Uma paranoia belicista da UE ?
A guerra da Ucrânia sob a capa de uma "operação militar especial" da Rússia é um dado adquirido. Mas daí a asseverar-se que a Rússia se prepara para invadir a Europa vai um passo ciclópico. Comecemos por apreciar o contexto: Esta Federação surge após o desaparecimento da URSS (sic. União Soviética). O regime socioeconómico então em vigor foi gradualmente substituído por um de economia de mercado, aproximando-se do liberalismo neoliberal. Assumindo, que na época da Guerra Fria, a Europa nunca se sentiu ameaçada, a verdade é que o regime agora apelidado "de Putin" assegurou a fruição pela UE do fornecimento de gás pelos gasodutos Nord Stream 1 e 2. Todavia, iniciada a guerra da Ucrânia em Fevereiro de 2022, estes dois gasodutos, a dar fé à acusação formal do Ministério Público alemão (deduzida em 2026), foram explodidos por 6 agentes ucranianos, sob a ordem de autoridade ucraniana, em Setembro de 2022. Se desse gesto explosivo resultaria uma eventual quebra de receita para os cofres da Rússia atacante, a verdade é que privou conscientemente a Alemanha de recepcionar o gás russo para daí proceder à distribuição pelos consumidores europeus. Neste contexto, não se pode dizer que o Governo Ucraniano tenha procedido amigavelmente para com a UE e a Europa em geral, como o Sr. Zelensky chega a pregar de pés juntos, quando se diz preocupado com o bem-estar dos europeus e menos ainda com a segurança da Europa.
Aliás, indaga-se sobre qual poderia ser o motivo para a Rússia invadir a Europa? Sem pôr em causa a inserção da Ucrânia na Europa, a verdade é que a relação desta com a Rússia em nada se confunde com o resto dos países europeus, que nunca integraram nem o Império Russo nem a URSS, ao contrário do que ocorreu com as terras da Ucrânia desde o séc. XVII. Dessa inserção, é natural ter ocorrido uma forte influência russa a marcar o espaço ucraniano, com particular destaque na parte oriental, concentrada na região de Donbass, abrangendo os espaços de Donetsk e Lugansk. De destacar que estas 2 localidades, compostas de russos e ucranianos, tinham como meio de comunicação a língua russa. Os motivos próximos da intervenção russa são algo controversos, variando entre: a perseguição a tudo quanto fosse russo na Ucrânia, levada a cabo pelos partidos Svoboda e Right Sector nos acontecimentos de Euromaidan em 2014, quando o processo de integração da Ucrânia na UE foi congelado pelo então Presidente pró-russo Víktor Yanukóvytch, dando origem a manifestações que culminariam na sua fuga para Rússia. A isto, seguiu-se a ocupação da península da Crimeia e; o combate do governo interino ucraniano (chefiado por Yatsenyuk) aos manifestantes e grupos paramilitares russos na região de Donbass, daí derivando a declaração unilateral de Donetsk e Lugansk como estados independentes. Seguiram-se os Acordos de Minsk, tendo como protagonistas base, a Federação Russa e a Ucrânia, acordos que nenhuma das partes se dignou respeitar.
Por sua vez, assim que Zelensky assumiu o poder em 2019, a situação de conflitualidade entre as comunidades russa e ucraniana e a instabilidade que se ia vivendo na Ucrânia levaram-no a que insistisse no propósito de aderir à UE e à NATO. Conquanto a Rússia não se opusesse a que a Ucrânia fizesse parte da UE, opunha-se vivamente à sua integração na NATO, organização configurada como militar, apoiada pelos EUA, constituindo uma ameaça hostil às portas da Federação Russa. Da situação assim gerada até à intervenção apelidada de "operação militar especial" foi um passo.
Não se discute o atual apoio militar da UE à Ucrânia, particularmente a partir do momento em que a América começou a revelar-se menos empenhada nesta tarefa. Também se evitará relevar aqui os exorbitantes montantes (milhares de milhões de euros) que os responsáveis políticos da UE teimam em gastar em 'apoio' à Ucrânia, com inevitáveis reflexos negativos nos orçamentos comunitários do futuro. Cabe apenas indagar se este apoio, longe de vir a resolver o diferendo, serve antes como catalisador para o seu prolongamento de acordo com o axioma de "fazer a guerra para alcançar a paz".
O que não se entende é estarmos confrontados com uma recente infusão de afirmações proveniente de responsáveis políticos e militares num desesperado alarme da Europa - claro, a UE incluída - pelo perigo de ser invadida pela Federação Russa. Foram os gritos algo delirantes de Marke Rutte (Secretário-Geral da NATO) e de Kaja Kallas (Alta-Representante de Negócios Estrangeiros e de Segurança da UE), entre outros, fazendo apelo à defesa que se impunha, para tanto, sendo fundamental a produção de armamento e sustentar a inerente indústria armamentista. Vá daí, envolverem-se, não só os 27 países da UE, como ainda outros países europeus, para tanto transmitindo uma algo ficcionada imagem da Federação Russa como fiel reprodução da URSS, essa que, mesmo na "entente da guerra fria", nunca se posicionou como um perigo para a Europa no seu todo (não é para aqui chamada e há que não confundir neste ponto o equilíbrio instável e a rivalidade que na altura existiu entre os USA e a URSS, e a que presentemente se patenteia com a RP China). Bom, num aspecto poderá eventualmente haver razão para esse alarme: a de o apoio tributado presentemente pela UE à Ucrânia ser configurado como uma "provocatio ad bellum"!
E, assim, estamos agora nesta - a da guerra híbrida. Mas afinal, o que entender disto tudo? Quererá Putin e a sua 'entourage' invadir mesmo a Europa ou parte dela? E isto no prolongamento da invasão da Ucrânia? Quais seriam as vantagens de conquistar terreno europeu, quando a Rússia é, em si, uma extensão vasta territorial e proprietária de riquezas territoriais que minguam na Europa Ocidental? Como conjugar este eventual aventuroso gesto, quando, a dar fé nos noticiários, a Rússia está a sofrer, ela própria, não só economicamente, como ainda com a agravante de as sanções económicas da UE irem já na sua 20.ª versão? Aliás, Putin, em declarações reiteradas, afasta este interesse invasor, como aliás, ainda mais recentemente, o próprio Rutte afastou este perigo, em declarações feitas na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, que teve lugar em 30 Setembro deste ano, em Bruxelas. Vão ainda neste sentido, as declarações do 1.º Ministro da Finlândia (país que tem a maior fronteira com a Rússia), Alexander Stubb, ao declarar que, de momento, não existem sinais claros de belicismo russo contra a Europa, distinguindo a este propósito dois erros em que laboram os países europeus, ou seja, confundindo uma mera percepção ou expectativa d a realidade. É o caso de alguns dirigentes das três Repúblicas Bálticas (alguns deles com responsabilidades na UE - caso de Kallas).
A nomenclatura de "guerra híbrida" tem sido avançada para secundar a infusão deste receio. Esta traduzir-se-ia na utilização de meios não tradicionais de conflitualidade bélica, gerando os efeitos preparatórios para uma guerra. Esta tática é atribuída à Rússia. Na verdade, a situação instável ora existente tem-se traduzido, além do mais, no fabrico de drones em larga escala. A própria Ucrânia tem já uma indústria de drones, propondo-se exportá-los em grande escala a outros países. Sem pôr de parte a utilização de drones (ou de quaisquer outros meios não convencionais de guerra) dentro de um vero conceito de "guerra híbrida", seja por quem for, o acesso fácil e indiscriminado destes instrumentos permite admitir que o seu uso esteja ao alcance de uma variedade de intervenientes ou interessados, desde um adversário ou inimigo (sic. Rússia) como outrem, eventualmente interessados em manter vivo o estado de tensão belicista, a fim de justificar o andamento das hostilidades (alguns países pertencentes ou não à UE), não se podendo afastar, ainda neste domínio, a eventualidade de um descontrole no comando de um drone para um país limítrofe, sem qualquer motivação atacante. Quer-se com isto significar que, no contexto em que as coisas ocorrem e se sucedem, o aparecimento de um drone num país terceiro, não pode, sem mais, ser atribuído a um inimigo sem que haja provas efectivas neste sentido. E a verdade é que todas as imputações que têm sido feitas à Rússia neste sentido são suposições, meros palpites, sem que tenha sido exibida prova de que essas acções são de uma autoria definida.
Daí a paranoia de "vêm aí os russos". O que nunca sucedeu com a URSS, ativa-se agora com a Federação Russa, tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia. Porém, como já acima se referiu, trata-se de uma questão que, em rigor, deve ser configurada como estruturalmente alheia à Europa, não fora o presuntivo e desastroso envolvimento, 1º - dos USA com o seu apoio militar e 2º - da UE, com os seus apoios instrumentais de armamento, as intermináveis sanções económicas (já a caminho da 21ª) e os empréstimos de milhares de milhões de euros.
Este ambiente de tensão e de alerta, para além do estado de permanente angústia das populações europeias, revelou-se uma óptima oportunidade para o negócio das indústrias de armamento assente numa produção para consumo próprio como para a sua venda a outros países. Senão vejamos o preçário em euros, a título meramente exemplificativo (tirado da IA): - um míssil Patriot (3,5 a 4 milhões); - um tanque de guerra Leopard 2A8; - alta tecnologia (29 milhões); Abram 8 (mais barato) (9 milhões); - caças > F-35- (Lockheed Martin) americano (92 milhões), Saab Gripen - sueco (80 milhões) - Dassault - francês - (80 milhões), Eurofighter - alemão - 110 milhões; drones - tipo kamikase (preço variável que pode ir até 45.000 mil euros); fragata - itáliano (1,3 mil milhões). Alguém poderá demover-me de que não estamos perante negociatas ao mais alto nível, com tudo o que envolve de alcavalas acessórias? Para um bom entendedor meio cêntimo basta.
CONCLUINDO e, aqui chegados indago: se não se descortina razão para a invasão da Europa (UE incluída) por parte da Federação Russa, se o próprio Putin e Lavrov assim o asseguram e sobretudo se essa ameaça está descartada pelo Secretário Geral da NATO, qual a necessidade em deixar os povos europeus em pulverosa anímica, assente numa instabilidade emocional de se ter que preparar para a iminência de uma guerra? No que tange o caso de Ucrânia, já vimos que a especificidade relacional existente entre os dois países envolvidos, e sem que se justifique a invasão russa em si, essa beligerância não é de forma alguma motivo para a exorbitância de gastos da UE neste conflito, sobretudo quando põe em risco a consistência dos orçamentos comunitários nos próximos anos (Ursula von der Lyen assim o asseverá) e tabelarmente, os orçamentos nacionais dos países membros em matéria de apoios imprescindíveis para satisfazer as necessidades do cidadão europeu nomeadamente em sede de saúde, ensino, reformas, habitação, salários justos ou segurança social. Neste contexto, ao enveredar pelo caminho de armamento e gastos militares a NATO e a UE só prosseguem três objetivos: a provocação bélica e de confrontação violenta; o repúdio de vias de diálogo e de negociação como métodos de solução de desacordos entre Nações e finalmente, a proliferação da indústria e comércio bélico com todos os inconvenientes e perigos que uma tal atividade envolve, nomeadamente em sede de esbajamento de dinheiros, em detrimento da paz, solidariedade e concórdia entre povos e nações.